Em entrevista, ela fala sobre o sucesso nas redes sociais com a sua percepção real e como tem que ser da maternidade

Sem papas na língua e com uma veia ácida que caracteriza o humor de suas ilustrações, THAIZ LEÃO, a Mãe Solo, DESCONSTRÓI AQUELE ROMANTISMO TODO DE TER FILHOS “que as mídias propagam, que aparece nos blogs coloridinhos, com aquelas fotos de COMERCIAL DE MARGARINA e aquele modelo de família que quase não existe, de tão inalcançável” – nas próprias palavras dela.

 

FOTO: Divulgação/Thaiz Leão - Mãe Solo

FOTO: DIVULGAÇÃO/THAIZ LEÃO – MÃE SOLO

Em conversa com o DaquiDali, ela revela um pouco mais de sua trajetória, fala de EMPODERAMENTO FEMININO e daquilo que defende para um mundo mais justo (tanto para as que estão em situação igual a sua, quanto as que são simpatizantes a ela).

“Eu sou designer (gráfico) por formação; trabalhei em agência e, quando o Vicente nasceu, estava no período de transição, migrando para atuar só com a parte digital”, ela  introduz. “Engravidei na faculdade, quando finalmente tinha conseguido uma bolsa (de estudos)! Foi no antepenúltimo semestre, quando ia iniciar meu TCC (Trabalho de Conclusão de Curso). Sabe aquela ESTABILIDADE QUE A GENTE SONHA, ‘quando estiver tudo bem, vou ter um filho?’. Não tinha! Só que ele veio e não sei o que ligou dentro de mim, uma criatura super assertiva, objetiva, disciplinada; pelo menos, 50% a mais do que eu era antes. Nesses dois anos de vida dele, fiz uma revolução que não fiz em 23!”.

FOTO: Divulgação/Thaiz Leão - Mãe Solo

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SURGIMENTO DO “MÃE SOLO”

“No começo, isso era muito um escape, porque eu desenhava as situações que estava vivendo, e se chegasse meia-noite, depois de terminar tudo, e rolasse alguma energia, fazia uma tirinha”. O perfil na rede social exclusivo para o projeto veio somente depois de um mês das primeiras publicações.“Muita gente ficava: ‘po! Adorei, achei muito massa, por que você não faz disso uma coisa contínua? Por que não abre uma página para eu acompanhar e curtir?’ E decidi: ah, vamos lá, vai! A energia está boa!”.

O PORQUÊ DE “MÃE SOLO”

“Eu vim com o nome naquela hora fatídica que você coloca lá: ‘criar página’”, ela brinca. “Bem, pensei, um é ‘mãe’… Só que mãe solteira não me agradava (agrada) – e pelos motivos óbvios: A MINHA RELAÇÃO COM O MEU FILHO NÃO É DETERMINADA POR AQUELA QUE TENHO COM O PAI DELE; e a relação do pai com o filho não pode ser estabelecida pelo status de relacionamento que ele tem com a mãe da criança. Daí entrou o solo – e fazia todo sentido”.

FOTO: Divulgação/Thaiz Leão - Mãe Solo

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Não foi um termo que ela inventou, ressalta. “Já falavam dele no aspecto de solidão, no sentido de essas mulheres estarem sozinhas. E, para mim, tem fundamento e ficou abraçado; cada pessoa vive uma experiência que diz o tamanho do trauma que ela gera. Às vezes, é criar o filho sozinha, às vezes, é viver com um cara que é abusador. Ser mãe solo é SER MÃE NO SÉCULO QUE VIVEMOS, encarar os problemas que a maternidade traz. Se a gente estivesse sozinha e tivesse amparo, não ia ser tão difícil. O negócio é que do jeito que asPESSOAS ENXERGAM A MATERNIDADE, você está sozinha mesmo! ‘Ah, o pai não participa porque… (encaixe aqui sua desculpa)’”.

FOTO: Divulgação/Thaiz Leão - Mãe Solo

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OBJETIVO DE VIDA

“A gente não está competindo para ver quem está se ferrando mais! A gente só quer mudar o que está ferrando todo mundo! Meu interesse de vida, meu potencial, é muito voltado para as pessoas. O que me realiza é isso: ver que uma ‘mina’ me manda mensagem às três da manhã, porque acha que pode contar comigo. Ela sente essa segurança, mesmo nunca tendo me visto; sabe que me conhece – e conhece mesmo! Porque meu trabalho é muito franco, o meu jeito de falar é muito franco. É muito sobre minha história, o que vivo, vivi, acredito, vejo (…) De onde quero estar, chegar. Quero que todo mundo participe comigo, tenha esse tipo de privilégio, autoestima, empoderamento; quero dividir!”.

FOTO: Divulgação/Thaiz Leão - Mãe Solo

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NÃO É “PÃE”

Thaiz aponta que NÃO HÁ RECOMPENSA ALGUMA NA MÃE QUE SE ENCONTRA SOBRECARREGADA, se desdobrando em milhares para sobreviver, “imaginando se conseguirá comprar o arroz do dia seguinte…. CHEGA DE ROMANTIZAR A AUSÊNCIA PATERNA. Mãe sim, pai e mãe, nunca! A gente que perde. E não é aquela perda egoísta, que a galera diz: ‘você não tem que se preocupar com o mundo, só com o seu filho’. É uma perda inclusive com a criança, porque você não tem tempo de brincar com ela, de formar um laço significativo, uma experiência significativa”.

FOTO: Divulgação/Thaiz Leão - Mãe Solo

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“Após o nascimento do meu filho, precisava quebrar esse ciclo de violência e obscuridade para as mulheres da minha vida. ENTENDENDO A QUESTÃO DO FEMINISMO (já era feminista antes, mas não agia pelo movimento), percebi que precisava mudar as coisas ao meu redor. Era o mínimo, já que quero alcançar tanta gente, tão longe. Uma coisa vai cobrando a outra. E eu me cobro coerência. É super PODEROSO ISSO DE VOCÊ ESTAR EM CONTATO COM UMA CRIANÇA. Hoje ele com dois anos e meio reproduz coisas que passam batidas – seu falo algo, tipo, ‘eita nós!’, ele já começa a repetir também. Se ele fica prestando atenção nisso, tão pequeno, o que o dia a dia comigo não vai fazer dele no futuro?”.

ONDE A JUSTIÇA ENTRA NISSO

FOTO: Divulgação/Thaiz Leão - Mãe Solo

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“Quando o meu filho estava quase para nascer, o pai dele teve um insight e falou: ‘quero participar sim!’. Depois de passados dois anos e meio de aproximação, ele fica com o Vicente duas vezes por mês, aos finais de semana. E não acho que seja nem perto do que é bom, necessário… Mas eu desencanei! Esse é o pai dele, e se ele quebrar (o acordo), vou estar aqui para falar para o meu filho: vamos conversar, tirar esses monstros aí de dentro de você, ENCARAR A REALIDADE“,  Thaiz expõe, frisando que não há nenhum contrato legal firmado. Apesar disso, ela aponta o tema como um dos mais comuns e sensíveis do universo de uma mãe solo. “Tanto que estou me programando para fazer um conteúdo mais animado para falar disso – é uma parte pesada! Desses aspectos jurídicos a gente foge porque, na real, fica esperando ter estômago para resolver. Sei como é difícil de encarar, ir ao juiz, abrir um processo. É complicado de digerir. Mas a etapa é super necessária, para não ficar nos ‘combinados’ que se perdem no espaço e não são cumpridos. Até para não ser INJUSTO COM A CRIANÇA“.

COBRANÇA PARA TODAS

FOTO: Divulgação/Thaiz Leão - Mãe Solo

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“Não é porque você não é mãe que você não vive um PESO EM RELAÇÃO À MATERNIDADE: se você casa é não tem filho, é uma ‘treta’; se você chega em determinada idade e não está com alguém, aí piora mais, porque precisa ter filho. TODO MUNDO QUER MANDAR NO SEU ÚTERO! No meu discurso, eu abraço qualquer mulher”.