Arte & Cultura

30 anos do funk: Confira o panorama de um dos ritmos preferidos no Brasil

Funk completa três décadas com o som da periferia para o topo das paradas ao mesmo tempo em que sofre críticas

“É som de preto, de favelado, mas quando toca ninguém fica parado”. O verso cantado por Amilcka e Chocolate no hit Som de preto é uma das melhores definições para explicar o movimento funk, ritmo que, neste ano, completa 30 anos se mantendo no topo das paradas e tendo projeção nacional e internacional, ao mesmo tempo em que continua a receber críticas e sofrer perseguições.

O marco do surgimento do gênero no Brasil é setembro de 1989, quando foi lançado o LP Funk Brasil, do DJ Marlboro, pela Poligram. No entanto, a semente do funk, como um gênero genuinamente brasileiro, foi plantada nos anos 1970, quando nasceram os bailes na Zona Sul carioca inspirados no funk norte-americano de nomes como James Brown e Miles Davis. “O Marlboro foi importante porque foi o primeiro DJ que teve recursos de uma gravadora para fazer um disco com funk cantado em português, neste LP de 1989. Mas os primeiros passos do movimento funk se deram nos anos 1970, com o movimento black, que fazia festa para ouvir o funk norte-americana, e, por isso, o ritmo brasileiro ficou com esse nome porque começou a ser tocado nos bailes que ali nasceram”, analisa Lucas Reginato, autor do livro Funk: A batida eletrônica dos bailes cariocas que conquistou o Brasil em parceria com Júlia Bezerra.

Naquela época, os DJs tocavam músicas instrumentais ou ainda versões em português de canções consagradas do movimento estadunidense. A cena foi estudada pelo antropólogo e pesquisador musical Hermano Vianna, que, em 1977, fez uma dissertação de mestrado sobre o tema que deu origem ao livro O baile funk carioca: Festas e estilos de vida metropolitana (obra esgotada, mas disponibilizada pelo autor para download em www.overmundo.com.br).
Também foi Vianna que, indiretamente, ajudou no nascimento do funk brasileiro. Velho conhecido de Fernando Luís Mattos da Matta, o DJ Marlboro, ele deu ao produtor uma bateria elétrica. O instrumento foi primordial para que Marlboro começasse a fazer experimentações até chegar à fórmula do funk. Nessas experimentações, Marlboro teve a ideia. “Fui fazendo experiências até que achei a fórmula”, conta ao Correio. “A música não podia ser falada (como o rap), tinha que ser cantada, pois somos um povo melódico. Depois, vi que tinha que ser uma música sem reclamação.  Eu tinha uma fórmula: uma música descontraída, sem compromisso de estar reclamando da vida e melódica”, completa.

Início e evolução

Uma das primeiras faixas a ser feita foi o Melô da mulher feia, versão de Do wah diddy diddy (1964), de Manfred Mann. Na época, o DJ achou que nenhuma gravadora fosse abraçar a proposta; então passou a produzir sozinho. Convidou os dançarinos dos bailes para cantar. Foi um dos primeiros “não” que ouviu. Até que fez com MC Batata o Melô do bêbado e engrenou na procura de mais MCs.
Logo em seguida veio MC Guto, pagodeiro que não estava indo bem no ritmo originário, com ele gravou Melô do bicho. Cidinho Cambalhota foi outro nome que Marlboro convidou. “Ele fundou o Baile da Pesada (juntamente com Ademir Lemos, que também está no LP com Rap do arrastão) na década de 1960, quando a música mecânica estava escondida no Rio de Janeiro. Fui e o convidei para participar, porque não acreditava que meu ídolo do movimento estava passando dificuldade”, completa ao dizer que o artista gravou o Rock das aranhas.
Assim surgiu Funk Brasil, o primeiro disco de funk do país e marco zero do nascimento do estilo musical. Marlboro gravou quatro faixas, sendo sete delas em parceria e apenas a faixa final, o Marlboro medley, sozinho. Mesmo com apoio de uma gravadora, o CD não teve verba para lançamento. O que não foi um problema, já que o disco vendeu mais de 20 mil cópias logo no lançamento. Em seguida, bateu mais de 100 mil discos. Hoje, estima-se que foram comercializados mais de 250 mil cópias.
O sucesso deflagrou a criação do Funk Brasil 2 e o lançamento dos MCs em carreiras solo. Dois anos depois, o funk Feira de Acari, de MC Batata, atingiu um novo patamar: se tornou trilha sonora da novela Barriga de aluguel. A partir daí, o funk foi ganhando mais destaque. Em 1994, Marlboro passou a integrar o elenco do programa da Xuxa. No mesmo período, Claudinho & Buchecha se lançaram no mercado introduzindo o funk melody, assim como Cidinho & Doca que estouraram com o Rap da felicidade.
Tati Quebra Barraco faz parte do movimento “tamborzão” e da mudança de discurso feminino no funk

O ritmo evoluiu mais uma vez chegando ao chamado “tamborzão” e nos anos 2000 se projetou, principalmente, com a Furacão 2000. Depois houve a maior presença feminina com nomes como Tati Quebra Barraco e Deize Tigrona mudando o discurso e dando voz às mulheres. Em 2010, a periferia paulista passou a criar o próprio estilo, o funk ostentação. Em 2012, veio o boom de Anitta com Show das poderosas e a popularização do funk ao se aproximar de outros estilos musicais mais comerciais. “A batida do funk passou por vários períodos diferentes, que acompanham as influências e possibilidades técnicas de cada momento”, explica Lucas Reginato.
Hoje, o ritmo que dita a ordem e é tendência do funk é o 150 BPM, uma batida mais acelerada que surgiu por nomes como Polyvax e Rennan da Penha  que introduziram o estilo nos bailes da Holanda e da Gaiola, respectivamente.

Sucesso e perseguição

foto: Arquivo Pessoal).
Ao longo dos 30 anos, o funk viveu diferentes momentos de auge. Esse sucesso do estilo musical no Brasil se deve por retratar exatamente parte da população brasileira. “Quando você fala de funk, você fala da favela, onde ele foi criado. De cada 10 casas, sete estão produzindo músicas. São canções que saem de um quartinho, que, às vezes, foram gravadas num fone de ouvido e viram sucesso no mundo. O funk é inspiração para muita gente. É o começo de tudo: veja a Anitta que começou no funk e hoje canta vários estilos. Outro exemplo é a Ludmilla. O funk é o ritmo que fala a verdade. Todo funkeiro, MC e DJ quer botar sua verdade, o que ele sentiu, o que ele passou na música”, afirma DJ Iasmin Turbininha, uma das sensações do 150 BPM.
O forte teor social é outro ponto que DJ Marlboro destaca do movimento. “O funk é muito o dia a dia. Ele dá oportunidade aos excluídos, tem todo um papel importante social”, comenta. De acordo com o especialista Lucas Reginato, a ascensão do ritmo tem a ver ainda com a mensagem, a sonoridade e a simplicidade de concepção: “O funk é popular porque a linguagem é acessível, e o ritmo é contagiante. O funk é música eletrônica, feita no computador, ninguém precisa aprender a tocar um instrumento e alugar um estúdio de gravação. Por isso, é mais barato de se produzir também. No mundo inteiro, os ritmos mais populares hoje em dia são eletrônicos, como o hip-hop, o reggaeton, o technobrega, etc”.
Anitta e Ludmilla representam um novo momento do funk: mais pop
(foto: Warner Music/Divulgação)

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