Conversa de Mãe

Como estas receitas de família se transformaram em negócios

Tradições e produções caseiras aprovadas por parentes e amigos chegam ao mercado como aposta dos empreendedores

Durante os 20 anos que Ricardo Linss morou na Alemanha, a avó Hedwig Dudy Müller não deixou de mandar as bolachas decoradas feitas por ela no Brasil na época do Natal. Depois de estudar gastronomia, comércio exterior e administração, foi natural pensar nos doces da avó na hora de abrir o próprio negócio, em São Paulo.

O resultado foi a inauguração do Café&Delikatessen Oma Hedy. Oma significa vovó em alemão e Hedy é o apelido carinhoso da avó, hoje com 91 anos. Assim como Linss se inspirou nas bolachas da avó para montar seu negócio, outros empreendedores enxergam nas receitas da família uma oportunidade para começar uma empresa e ao mesmo tempo manter as tradições.

Na avaliação da consultora do Sebrae-SP Juliana Berbert, essa prática é bastante comum porque conta com prévia validação e aceitação de um possível mercado consumidor, que muitas vezes também opina sobre possíveis melhorias e variações de sabores. “Essa etapa prévia gera uma expectativa positiva de que o produto será bem aceito pelo mercado em geral”, destaca.

De acordo com Juliana, desenvolver um negócio a partir de uma receita familiar cria uma relação positiva com a tradição e, de certa forma, “conforto”. “Quando as receitas são tradicionais, elas contam uma história, proporcionam um envolvimento emocional que é fundamental para se conectar com os clientes. A proposta de valor traz esse viés de empatia e indulgência, quando você se sente parte de algo maior ao consumir o produto. É um diferencial a ser explorado e que pode ser um excelente mecanismo para engajar o cliente potencial”, destaca.

No Café Oma Hedy, por exemplo, é comum cientes se lembrarem da infância durante a visita. “Hoje, muitas tradições vão se perdendo. As pessoas nos visitam e lembram das coisas que as avós faziam”, conta o empresário. O negócio foi montado no imóvel em que funcionou o açougue dos avós. “O projeto demorou dois anos para se concretizar. Fiz um investimento inicial de R$ 9 mil e adequações. Trabalhava o dia inteiro e depois do expediente ia arrumar o
espaço”, conta Linss, que tem planos de expandir o negócio.

O local tem como carro-chefe o strudel, do tradicional de maçã até o de joelho de porco defumado com chucrute, além de comercializar outros produtos típicos da Alemanha.

Saudável e vegana

A receita de granola da mãe da empresária Carolina Potenza sempre fez sucesso entre os familiares e amigos, mas o produto não foi a primeira opção considerada na hora de abrir a empresa. “Há 20 anos não se achavam produtos saudáveis com facilidade no mercado e minha mãe fazia essa granola, à base de castanha e com melado de cana. Ela é mais grudentinha, para comer como um snack”, lembra Carol.

O e-commerce Natural e Ponto começou a funcionar em 2015 apenas com a venda de produtos de outras marcas. Mas depois da insistência das pessoas ao redor, Carol resolveu fazer um teste com a receita da granola da mãe Carmelita. A inspiração para o nome do produto, Granola da Vovó, veio do sobrinho, fã da granola da avó.

Sem grandes pretensões, Carol embalou o cereal, pediu ajuda de uma amiga nutricionista para inserir as informações nutricionais e colocou à venda no site. Ela achou que as primeiras transações eram resultado da curiosidade dos clientes. Mas o número de clientes que voltavam a comprar despertou a atenção. “Parei de vender os outros produtos e fiquei um ano só vendendo granola para entender o mercado”, conta.

Aos poucos a empresária começou a inserir outros produtos no site, como granola de chocolate, castanhas drageadas e brigadeiro proteico. Todos veganos. A empresa segue com planos de expansão. O objetivo é terceirizar a produção para conseguir aumentar a escala no médio prazo, chegar a mais pontos de vendas e lançar novos itens. Atualmente são vendidos cerca de 100 quilos da granola por mês no site, lojas e empórios de produtos naturais.

Adaptação

A avó também foi a homenageada pelo negócio de Edgard Wolf, proprietário da Pimentas Vó Lice, de Avaré. O molho foi inspirado na receita que a avó Alice fazia para temperar frango para rechear coxinhas. “Todo mundo gostava do tempero. Aí veio o instinto empreendedor; adaptei a receita e abri
a empresa”, conta.

Esse impulso empreendedor a que Wolf se refere veio à tona quando ele ficou desempregado, em 2012. om R$ 200, ele viajou a São Paulo para comprar os frascos para o molho. “A maioria dos 100 primeiros frascos foi doada para o pessoal experimentar”, diz. Hoje, Wolf investe em outros produtos à base de pimenta e tem planos para lançar uma linha de molhos premium. “Minha produção é artesanal e estou me estruturando para lançar uma nova linha”, conta.

Para quem tem planos de transformar uma receita de família em um negócio, a consultora do Sebrae-SP destaca que o principal cuidado é fazer um bom levantamento de custos, tanto da mercadoria vendida (CMV), dado a partir do desenvolvimento das fichas técnicas, quanto dos custos fixos e variáveis que envolvem a produção do produto. Esse levantamento ajuda no cálculo do investimento inicial e na composição de preços com a melhor margem e retorno.

“Muitos empresários, principalmente os que vão iniciar o negócio em casa, acabam não contemplando todos os custos envolvidos, e assim, não conseguem dimensionar o retorno que o empreendimento de fato irá dar”, alerta Juliana.

A consultora também chama a atenção para um bom planejamento de marketing. “Uma coisa é o produto ser aprovado por amigos e familiares, outra é ser aprovado pelo mercado”, frisa.

O planejamento de marketing analisa se o produto está adequado ao local, se a segmentação de clientes foi pensada de acordo com a proposta de valor do produto e como será feita a comunicação com os consumidores. É a hora de trabalhar os 4Ps (produto, preço, praça e promoção) para direcionar melhor o planejamento do negócio.

Cuidados

O empreendedor também não pode se esquecer das boas práticas e legislação sanitária. “É necessário que a produção seja feita dentro das normas estabelecidas pela vigilância sanitária, mantendo o local limpo, com uso de produtos de qualidade, a operação dentro dos padrões que minimizem quaisquer riscos de contaminação e a saúde dos clientes”, reforça a consultora.

O que fazer antes de começar

Faça um levantamento de custos
• Custo da mercadoria vendida (CMV) – a partir do desenvolvimento das fichas técnicas
• Custos fixos e variáveis envolvidos na produção

Faça um planejamento de marketing
• Adequação do produto
• Segmentação de clientes
• Como será feita a comunicação

Siga a legislação sanitária
• Produção deve ser feita dentro das normas estabelecidas pela vigilância sanitária
• Operação deve seguir os padrões para minimizar riscos de contaminação

 

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