Arte & Cultura

Exposição reúne obras de Pedro Juan Gutiérrez e Gerson Fogaça

O universo do realismo sujo do escritor cubano aparece nos poemas visuais e nas pinturas

Quando teve o primeiro contato com a obra literária de Pedro Juan Gutiérrez, o artista goiano Gerson Fogaça ficou fascinado com as semelhanças entre o universo sombrio das histórias do cubano e seus próprios trabalhos de pintura. Fogaça é um apaixonado por temas relacionados à cidade e suas pinturas mergulham num submundo surreal que tem muito a ver com os romances de Gutiérrez. Por isso, fez todo sentido para a curadora Dayalis González Perdomo juntar os dois na exposição O sangue no alguidá, um olhar desde o realismo sujo latino-americano, que inaugura hoje no Museu Nacional da República depois de um périplo por conta de seu suposto conteúdo erótico.

Foi o próprio Fogaça quem apresentou os livros de Gutierrez à curadora. Cubana, ela não conhecia o autor, cujas obras não chegavam a ser publicadas no país natal por causa do conteúdo questionador da escrita do autor. “Há 10 anos, li O rei de Havana e achei fantástico, me identifiquei com a obra do Pedro Juan. E há 10 anos trabalho com a Dayalis. Comentei sobre a obra dele e ela não conhecia porque ele não publicava em Cuba. E aí, um dia, ela me ligou falando da ideia da exposição”, conta Fogaça.

Poema visual do escritor cubano tem referências no pop e nos quadrinhos (foto: Pedro Juan Gutiérrez)
Poema visual do escritor cubano tem referências no pop e nos quadrinhos(foto: Pedro Juan Gutiérrez)

Ele passou então a pintar os 25 quadros que integram a exposição. São telas que mesclam técnicas como pintura, colagem e fotografia nas quais os tons escuros e a superfície habitada por personagens inspirados nos livros do autor cubano tomam vida em uma composição caótica e confusa. “O fascínio, para mim, é olhar o universo dele como se estivesse olhando para mim mesmo. Assim comecei a desenvolver o trabalho. Claro, é carregado de sensualidade e erotismo porque é a obra dele. O trabalho não fala só de sexo, mas da degradação social, do abismo social, da fome e da miséria, assim como na obra do Pedro Juan”, avisa Fogaça. “Pedro Juan fala da preferência dele pelo lado escuro do homem, pela noite e não pelo dia. É à noite que as coisas acontecem. E meu trabalho é muito carregado de azul, preto, tem uma escala dramática, então é um trabalho bastante dramático. Por isso me identifiquei com a obra dele, tem tudo a ver.”

Autor de livros como Trilogia suja de Havana, O rei de HavanaAnimal tropical e do mais recente Fabian e o caos, Gutiérrez é dono de uma escrita que se ancora no que a curadora chama de realismo sujo, mas sua obra plástica também bebe em outras fontes. É no mundo pop, no universo dos quadrinhos e no grafite, maior expressão da arte urbana, que o escritor encontra as referências para seus poemas visuais. São, nas palavras da curadora, “chuvas de ideias, aparentemente caóticas, cadáveres esquisitos nos quais intuímos um Pedro Juan Gutiérrez mais intelectual”. De qualquer forma, é sempre a realidade social partida e degradada que aparece nas obras do cubano.

Censura ou “restrição institucional”

Gerson Fogaça nunca pensou que seu encontro com Pedro Juan Gutiérrez seria marcado pela censura. Programada para ocupar o Museu dos Correios, a exposição O sangue no alguidá, um olhar desde o realismo sujo latino-americano precisou ser deslocada para o Museu Nacional da República por causa do conteúdo supostamente inapropriado. Três obras de Fogaça e duas do cubano teriam, segundo a gerência responsável pelo Museu dos Correios, conteúdo inapropriado e sofreriam de “restrição institucional” por não estarem alinhadas com as ideias do governo federal. São imagens nas quais aparecem corpos semidesnudos. Em nota, o Museu dos Correios explicou que as imagens da exposição não condiziam com a “política de associação da marca Correios”. “Durante a aprovação do catálogo, foram observadas algumas imagens que não condizem com a política de associação da marca Correios. Assim, foram feitas duas sugestões à curadoria: dar andamento à exposição, com a retirada das imagens em questão; ou não realizar a exposição. Tendo em vista a recusa da organização em retirar as imagens indicadas, a exposição foi recusada”, diz a nota.

O erotismo faz parte das obras dos dois artistas, mas o conteúdo dos trabalhos não chega a ser pornográfico. São infinitamente mais comportados, por exemplo, do que os desenhos eróticos de Pablo Picasso expostos na mostra Azul e rosa, um dos maiores sucessos de publico do Museu de Orsay, em Paris, no ano passado. “Sou fã do Pedro Juan e nunca imaginei que fosse ter esse encontro com ele, ainda mais assim, com censura e tudo mais. E o engraçado é que quem vive no país da censura é o Pedro Juan. Isso é anacrônico. Onde está a liberdade de expressão?”, repara Fogaça.

Como os artistas se recusaram a retirar as obras da mostra, a produção foi em busca de outro local para a exposição. Financiada por recursos do Fundo de Cultura de Goiás, O sangue no alguidá, um olhar desde o realismo sujo latino-americano encontrou abrigo no Museu Nacional da República. “Inacreditável a censura do Museu dos Correios, porque são alguns poemas visuais e uns quadros do Gerson que são eróticos. Bom, erótico até certo ponto. Me parece uma coisa muito estranha, para não dizer hipócrita. Isso acontece em Cuba também”, diz Pedro Juan, que confessa estar bastante acostumado a ser censurado.

Para a curadora Dayalis González Perdomo, a intenção do projeto é ser um espaço de contracultura, que entende a cultura como uma sobreposição de verdades e não como a realidade em si. Os artistas fazem revisão estética do realismo sujo, que não admite adornos, e da realidade contemporânea. “E eles estão sendo censurados por isso, por mostrar suas realidades individuais e coletivas em tempos de pós-verdade. Chegamos a um ponto em que deveríamos, então, apagar a história da arte começando pelo Paleolítico e indo até os renascentistas e barrocos”, diz Dayalis.

O sangue no alguidá, um olhar desde o realismo sujo latino-americano

Exposição de Pedro Juan Gutiérrez e Gerson Fogaça. Abertura hoje, às 20h, no Museu Nacional da República. Visitação até 6 de agosto, de terça a domingo, das 9h às 18h30.

Palestra: Encontro com Pedro Juan Gutierrez. Mediação: Sérgio Sá

Hoje, às 18h, na Casa da Cultura da América Latina (CAL – QD 04 Edifício Anápolis).

Entrevista: PEDRO JUAN GUTIÉRREZ

Pedro Juan Gutiérrez começou a confeccionar os poemas visuais aos 20 anos. Escrevia, mas não publicava porque era muito difícil, segundo ele, publicar poesia em Cuba. As primeiras exposições foram feitas nos anos 1980. Em 1988, ele participou de um mostra internacional de poesia visual em São Paulo e nas décadas de 1980 e 1990 esteve em várias bienais dedicadas ao gênero no México. “Aos poucos, encontrei uma vocação minha porque sempre quis pintar e estudar artes plásticas. Assim, conseguia mesclar minhas duas vocações, que são a escrita e visualidade”, conta, em entrevista ao Correio. A mescla entre a visualidade e a literatura sempre interessou ao escritor, que passou a levar para os poemas alguns dos temas tratados nos livros. Se a referência visual é pop, o conteúdo da escrita é bem familiar ao leitor de Gutiérrez. Agora, ele trabalha na publicação do primeiro livro de poemas, que ainda não tem data para sair.

Ficou surpreso com a restrição imposta a suas obras pela instituição que receberia a mostra originalmente?

Isso acontece também em Cuba, aconteceu há três anos, quando fiz uma exposição de 40 poemas em uma galeria em Havana e 14 foram censurados pela mesma coisa, porque havia um pouco de erotismo, mulheres nuas. Estou acostumado com a censura. Trabalhei como jornalista durante 26 anos e sofri muita censura, muitíssima mesmo, havia temas dos quais não podíamos tratar. E depois, como  escritor também. O rei de Havana não foi publicado nem nos Estados Unidos nem na Inglaterra. Parece excessivamente pornográfico para eles. Publicam todos os meus livros, menos O rei de Havana. Então a censura e eu somos velhos amigos, não somos mais inimigos e andamos juntos pelo mundo.

Como o questionamento social que aparece na sua literatura está também nos poemas visuais?

O questionamento social está no meu coração desde que era um feto. Não uma criança, mas um feto. Nasci falando do contrário, não naveguei com o vento a favor. Não sei o porquê, me parece um pouco genético. Mas não é o questionamento pelo questionamento. Creio que a obra de um artista tem que ter algo próprio, não pode pensar como pensam os demais, tem que ir na vanguarda do pensamento. Creio que tudo vem daí. As pessoas acham que sou rebelde por gosto, mas não é isso. Sou rebelde porque tenho critérios próprios e os estou expondo na obra, seja num conto, num romance, num quadro ou num poema visual.

Para que serve a poesia e a arte?

Na minha opinião, a arte serve para despertar a consciência das pessoas, não serve apenaspara  entretê-las, para ver um quadro bonito ou ler um romance bonito. Quando você lê um livro forte, de algum modo se abrem dúvidas, perguntas. E quando termina de ler o livro ou de ver a exposição, está cheio de perguntas. Essa é a função da arte: inquietar um pouco, mexer um pouco com ideias com as quais, normalmente, não se mexe.Um artista tem que estar sempre na vanguarda da inquietude.

Como o erotismo, a sexualidade, a religiosidade e as construções morais aparecem nos poemas?

Tudo isso, claro, tem que aparecer, porque são inquietudes que estão dentro de mim. Tenho, por exemplo, toda essa inquietação com a religiosidade. Agora estou estudando o budismo, mas antes disso experimentei, muito criança, a igreja católica, depois a santeria e outras religiões africanas, a meditação e a yoga. E, quando escrevo, falo da minha experiência pessoal, do que mais conheço, do que mais sofri ou desfrutei na vida. É disso que se trata. Um artista está sempre trabalhando com a própria vida.

 

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