Arte & Cultura

História de Brasília vira lenda indígena em desfile da Vila Isabel no carnaval de 2020

Enredo do samba foi anunciado no sábado em evento da escola, no Rio de Janeiro. Brasil assume figura de curumim e Brasília, a irmã que traz ‘esperança’.

Construída no Planalto Central de um país fundado em terras indígenas, a história da capital vai ganhar contornos de mitologia em 2020. Tema da escola de samba carioca Unidos da Vila Isabel, Brasília vai desfilar na Marquês de Sapucaí, no Rio de Janeiro, no ano em que completa 60 anos.

Em uma sinopse de quase cinco páginas, elaborada pelo sambista e compositor Edson Pereira em parceria com os antropólogos Clark Mangabeira e Victor Marques, a origem de Brasília vira lenda indígena e serve de alimento criativo para a composição do samba.

“O carnaval tem esse compromisso com a cultura, com o conhecimento que precisa ser externado”, disse Pereira ao G1. “Hoje, o brasileiro enxerga Brasília como a capital da política e da corrupção. O momento que estamos vivendo contribui para isso.”

“Nossa responsabilidade é trazer fantasia e não tristeza ou ressentimento.”

Apresentação da escola de samba Unidos de Vila Isabel, do Rio de Janeiro, durante evento que anunciou enredo do carnaval de 2020 — Foto: Unidos de Vila Isabel/Divulgação

Apresentação da escola de samba Unidos de Vila Isabel, do Rio de Janeiro, durante evento que anunciou enredo do carnaval de 2020 — Foto: Unidos de Vila Isabel/Divulgação

As inspirações da agremiação para o carnaval de 2020 foram anunciadas no sábado (13). O evento na sede da escola reuniu os governadores do Distrito Federal, Ibaneis Rocha (MDB), e do Rio de Janeiro, Wilson Witzel (PSC), além do secretário de Cultura e Economia Criativa do DF, Adão Cândido.

Durante a festa, a nova rainha de bateria, Aline Riscado, também foi coroada. O presidente da escola, Fernando Fernandes, sugeriu que as mulheres dos governadores do DF e do RJ, Mayara Noronha e Helena Witzel respectivamente, participem do desfile.

O enredo

O enredo recebeu o título “Gigante pela própria natureza – Jaçanã e um índio chamado Brasil”, e ainda será transformado em música.

Para escolher a composição que será ouvida na Sapucaí, tradicionalmente, a Unidos da Vila Isabel promove uma disputa entre os mais de cem compositores da agremiação. A comunidade é quem escolhe a melhor.

Desta vez, porém, a escola cogita convidar Martinho da Vila para assinar o samba. Ele é presidente de honra da Vila Isabel e foi destaque no carro abre-alas do carnaval de 2018, no dia em que completou 80 anos.

Martinho da Vila é o presidente de honra da Vila Isabel — Foto: Alexandre Durão/G1

Martinho da Vila é o presidente de honra da Vila Isabel — Foto: Alexandre Durão/G1

No enredo, o Brasil é um corajoso curumim (criança, em tupi-guarani) que, durante um sonho, descobre o nascimento da irmã por meio da revelação de uma jaçanã (pássaro).

Brasília, então, nasce para levar esperança aos povos que habitam as vastas terras onde o garoto também vive. Lucio Costa e Oscar Niemeyer são mencionados como “dois pajés”, que vão “modelar” a capital federal.

Projeto de Lúcio Costa — Foto: Arquivo Público do Distrito Federal/Reprodução

Projeto de Lúcio Costa — Foto: Arquivo Público do Distrito Federal/Reprodução

Distante da realidade, a escola de samba pede licença poética para floreios e invenções. “Se tudo isso é estória, fato mais bonito (re)inventado do sonho de um curumim lendário talhado na memória, a realidade é outra coisa.”

“Contudo, pede-se licença para imaginar contos de límpida felicidade no Carnaval para nesses dias acalmar o sofrimento incessante do doloroso real.”

Evento da escola de samba Unidos de Vila Isabel, no Rio de Janeiro, que anunciou Brasília como enredo do carnaval de 2020 — Foto: Unidos de Vila Isabel/Divulgação

Evento da escola de samba Unidos de Vila Isabel, no Rio de Janeiro, que anunciou Brasília como enredo do carnaval de 2020 — Foto: Unidos de Vila Isabel/Divulgação

Brasília indígena

Na lenda indígena criada pela Unidos de Vila Isabel, o Brasil assume as feições de um pequeno curumim que “pesca com vontade danada de gente grande”. Ele adentra as matas em uma canoa, que se transforma em jaçanã no mundo dos sonhos. Então, ele escuta a ave dizer:

“Pequeno menino, quero lhe contar sobre a sua irmã tão mais nova que é quase filha! Será forte e esperançosa, um ponto de luz no universo que nascerá em abril.

Sabe-se que ela terá muito a dar aos homens e mulheres de boa vontade na terra e que será grande, gigante, reta, moderna, só podendo ser entendida se soubermos sobre sua pátria-família, a verdadeira mãe e geradora da sua irmã nessa cantiga.”

Apresentação da escola de samba Unidos de Vila Isabel, do Rio de Janeiro, durante evento que anunciou enredo do carnaval de 2020 — Foto: Unidos de Vila Isabel/DivulgaçãoApresentação da escola de samba Unidos de Vila Isabel, do Rio de Janeiro, durante evento que anunciou enredo do carnaval de 2020 — Foto: Unidos de Vila Isabel/Divulgação

Apresentação da escola de samba Unidos de Vila Isabel, do Rio de Janeiro, durante evento que anunciou enredo do carnaval de 2020 — Foto: Unidos de Vila Isabel/Divulgação

Em cima da ave, ele sobrevoa as regiões do território vasto e diverso que ele habita. Nos cinco cantos, o povo clama por “amor e união em uma nova casa pronta”.

“O que os cabeças-amarelas, os pretos, os filhos do mar, das Minas e os futuros Candangos recitavam e apontavam será aqui: sua irmã, o lugar de fé que unirá aquela gente, aquele povo todo,
para o mundo jorrando leite e mel com gosto…

A terra mística no alto desse Planalto que se levantará tentando nos dar ‘sessenta’ anos em cinco de avanço sem percalço com tanta gente junta que se esparramarão para além das Asas da casa, deitando-se até em seu entorno com as cores das suas culturas servindo de reboco! Vem, menino Brasil, anime-se! Sua irmã Brasília será ave que voa e rodopia”, diz a jaçanã.

Ao final do sonho, a ave se funde à terra, libera uma luz forte e volta a ser canoa. O menino acorda de supetão e volta correndo para a aldeia para contar à mãe as visões que acabara de ter, mas ela também lhe revela uma notícia:

“Filho meu, Brasil pequenino… Descobri hoje com o xamã que você terá uma irmã! Em sua homenagem se chamará Brasília! Uma menina-Brasília que será gigante pela própria natureza!”

Cooperação mútua

Ibaneis assina termo de cooperação com a Vila Isabel — Foto: Renato Alves/ Agência Brasília

Ibaneis assina termo de cooperação com a Vila Isabel — Foto: Renato Alves/ Agência Brasília

O termo de cooperação técnica, firmado entre a Secretaria de Cultura e Economia Criativa do DF e a escola de samba Unidos de Vila Isabel, prevê captação de recursos via Lei de Incentivo à Cultura (LIC) e troca de conhecimento com as agremiações do DF.

O GDF se comprometeu a ajudar a escola de samba carioca a conseguir patrocínio da iniciativa privada por meio de uma ferramenta legal que permite a transferência de recursos de impostos pagos por empresas e pessoas físicas a projetos culturais – a antiga Lei Rouanet.

Apresentação da escola de samba Unidos de Vila Isabel, do Rio de Janeiro, durante evento que anunciou enredo do carnaval de 2020 — Foto: Unidos de Vila Isabel/Divulgação

Apresentação da escola de samba Unidos de Vila Isabel, do Rio de Janeiro, durante evento que anunciou enredo do carnaval de 2020 — Foto: Unidos de Vila Isabel/Divulgação

O acordo entre o governo do DF e a Vila Isabel também estabelece a realização de capacitações com escolas de samba da capital. Há cinco anos, Brasília não tem desfile oficial das agremiações por falta de verbas.

Segundo o GDF, a escola carioca “vai contribuir com organização do carnaval tradicional de Brasília com a transmissão de conhecimento e tecnologia para a realização dos desfiles em diversas áreas como confecção de alegorias e fantasias, samba enredo e estrutura interna”.

Porta-bandeira da Vila isabel atravessa o sambódromo — Foto: Rodrigo Gorosito / G1

Porta-bandeira da Vila isabel atravessa o sambódromo — Foto: Rodrigo Gorosito / G1

O presidente da Vila Isabel, Fernando Fernandes, disse ao G1 que a ideia é trazer profissionais da agremiação, pelo menos, uma vez por mês até o fim do ano. Segundo ele, as atividades devem começar ainda no final de julho.

O carnavalesco Edson Pereira explicou que as oficinas serão variadas e vão abordar a criação de um desfile de carnaval desde a concepção, quando tudo ainda é só ideia.

“Eu mesmo vou levar quatro profissionais envolvidos com a construção artística e funcional, desde o enredo até a estrutura física. Arquitetos vão ensinar a fazer planta baixa de alegoria, desenvolvimento, volumetria. Também vamos trazer carpinteiros, ferreiros, casais de mestre sala e porta bandeira e a minha experiência profissional.”

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