Carreira & Finanças

Mulheres deixam mercado de trabalho para empreender e ficar mais perto dos filhos

Longe de postos fixos, elas descobrem que podem ter horários flexíveis e acompanhar desenvolvimento dos pequenos

CUIDAR DOS FILHOS, com todas as responsabilidades e tarefas que isso envolve, e AINDA SE DEDICAR A UMA CARREIRA PROFISSIONAL não é tarefa fácil. Os horários rígidos de trabalho em muitas empresas mais a falta de flexibilidade pioram essa equação, motivando muitas mulheres a BUSCAREM ALTERNATIVAS AO MERCADO DE TRABALHO CONVENCIONAL.

Essa foi justamente a saída da administradora de empresas Melissa Malfacini, 41 anos, mãe da Marina, de 8. Antes da filha, Melissa trabalhava na área financeira e PASSAVA LONGAS HORAS NA EMPRESA, além de viajar. Mas, depois que a pequena nasceu, ela diz: “Eu MEIO QUE NASCI NOVAMENTE. Era uma nova pessoa que estava lá, depois da licença-maternidade. Quando retornei, vivi essa experiência de não ter mais lugar para mim”.

Melissa investiu em três negócios. Foto: Acervo pessoal

MELISSA INVESTIU EM TRÊS NEGÓCIOS.

Se, antes de dar à luz, Melissa desfrutava de uma posição de destaque dentro da companhia,DEPOIS QUE A FILHA NASCEU PERCEBEU QUE SUA SITUAÇÃO HAVIA MUDADO. “Aquilo passou a não me satisfazer”, conta. O fato de deixar Marina em uma creche o dia todo, sem flexibilidade para acompanhá-la, piorou o quadro. “SENTIA QUE NÃO ERA BOA EM NADA, NEM COMO MÃE, NEM COMO PROFISSIONAL“.

Ela fala que sempre teve vontade de empreender, mas faltava coragem. Depois de ser demitida, fez uma vasta pesquisa de mercado e decidiu abrir uma loja de doces com o marido. Mas não parou por aí: anos mais tarde, retomou um curso de fotografia que fizera e passou a trabalhar também nesse ramo. Recentemente, lançou ainda uma empresa para suprir materiais para festas infantis do pijama. “Todos esses negócios são uma forma de dar vazão à minha criatividade. E estão todos interligados: ofereço as fotos da festa do pijama e levo os lanchinhos feitos na loja”, diz.

Claro que seu dia a dia nem sempre é dos mais tranquilos. “Eu sabia que trabalharia ainda mais do que se estivesse em uma empresa, mas isso não me assusta. A parte ruim é aINCERTEZA FINANCEIRA, principalmente em momentos de crise. Mas, hoje, SOU COMPLETAMENTE RESPONSÁVEL PELA CRIAÇÃO DA MINHA FILHA. Para mim, isso supera qualquer coisa”.

Maria Cristina criou uma rede de mães empreendedoras. Foto: Acervo pessoal

MARIA CRISTINA CRIOU UMA REDE DE MÃES EMPREENDEDORAS

TEMPO PARA CUIDAR

A pedagoga Maria Cristina Pereira Bernardo, 35 anos, enfrentou uma dificuldade a mais quando seu filho nasceu. “Ele teve um problema sério de saúde, teve que ficar na UTI eCORREU RISCO DE VIDA, então, nos primeiros meses, tivemos que ir a uma série de médicos e acompanhar o crescimento dele”, conta.

Quando a licença-maternidade acabou e ela teve que voltar à escola onde trabalhava, a opção foi deixar o filho em uma creche das 7 horas da manhã às 7 horas da noite. “Isso era muito difícil para mim, principalmente porque EU TINHA QUE TRABALHAR COM OUTRAS CRIANÇAS E DEIXAR A MINHA EM OUTRA ESCOLA“, diz.

Maria Cristina entrou, então, em um longo processo de busca, que incluiu formações em recursos humanos e gestão de negócios, investimento em uma franquia, um negócio próprio e até a ocupação de uma nova vaga de emprego. “Nesse processo, claro que ERREI MUITO, mas fui aprendendo”, fala.

A vida de Maria Cristina mudou mesmo quando ela foi escolhida para participar de uma incubadora de negócios jovens no Rio de Janeiro. E foi da SUA PRÓPRIA REALIDADE QUE SURGIU SEU EMPREENDIMENTO DE SUCESSO: “Eu queria conciliar um modelo de negócio com a REALIDADE DAS MULHERES. Muitas se sentem motivadas a começar algum NEGÓCIO POR SEREM MÃES, fui vendo como esse movimento era forte em outros países e resolvi criar essa rede aqui também”.

Surgiu, assim, o MÃES EMPREENDEDORAS, projeto que começou como um blog para levar informação e capacitação para mulheres na mesma situação que a de sua fundadora. Hoje, a rede tem uma página no Facebook com mais de 5 MIL SEGUIDORES, um grupo fechado de mais de 3 MIL PESSOAS e uma lista de e-mail – espaços em que as mães TROCAM IDEIAS, DÚVIDAS E CONHECIMENTO. Além dessas plataformas, Maria Cristina dá cursos para quem quer empreender ou formatar um modelo de negócio e oferece serviços de comunicação.

Foto: Acervo pessoal

LUCIANA TEM UM E-COMMERCE DE PRODUTOS PARA MÃES E FILHOS.

PREOCUPAÇÕES DE UMA NOVA GERAÇÃO

A bióloga Luciana Ivanike, 34 anos, trabalhava em uma empresa com 12 funcionários em que fazia de tudo – desde cuidar de treinamento, recrutamento e administração financeira. Na época, sua filha mais velha tinha 2 anos. Luciana a deixava em casa às 7 horas com a babá e ia para o trabalho; voltava às 12 horas para almoçar com a filha e levá-la para a escola; depois, às 17 horas, pegava a criança no colégio e a levava com ela de volta para a empresa, onde ficava até as 22 horas. “Muitas vezes ELA DORMIA EM UM COLCHÃO INFLÁVEL QUE EU TINHA LÁ“, diz.

Quando engravidou da segunda filha, Luciana entendeu que não aguentaria aquele ritmo com duas crianças, então decidiu parar de trabalhar. Ela conta: “Quase fiquei louca! Com o ritmo que eu levava, não aguentava ficar em casa”. Foi então que surgiu a oportunidade deCOMPRAR A EMPRESA DE UMA AMIGA, que vende brinquedos, slings e outros artigos para crianças. “Logo na primeira semana VIREI TODAS AS NOITES TRABALHANDO NA EMPRESA. E isto foi o que mais me cativou: POSSO trabalhar como uma louca, mas também posso ir a todas as reuniões da escola ou LARGAR TUDO SE UMA DAS MINHAS FILHAS TEM UMA FEBRE“, fala.

Luciana faz uma reflexão interessante: “Acho que a NOSSA GERAÇÃO É DIFERENTE. Nossas avós eram aquelas que ficavam em casa cuidando de filhos e netos, fazendo bolo. Nossas mães saíram para trabalhar 8 horas por dia. Não ficavam com os filhos, que eram cuidados por empregadas ou babás. Já a nossa geração NÃO QUER SÓ CUIDAR DE FILHO E DE CASA, mas também NÃO QUER TERCEIRIZAR completamente o cuidado com os filhos. ESTAMOS TENTANDO ACHAR UM MEIO TERMO“.

O EMPREENDEDORISMO É MATERNO

Segundo dados da “Pesquisa GEM 2015: Empreendedorismo no Brasil e no Mundo” e do IBGE,AS MULHERES REPRESENTAM 49% DOS EMPREENDEDORES INICIAIS. Entre elas, cerca de40% SÃO CHEFES DE FAMÍLIA – a maioria com pelo menos um filho.

Mulheres representam 49% dos empreendedores iniciais. Foto: Thinkstock

MULHERES REPRESENTAM 49% DOS EMPREENDEDORES INICIAIS.

Mas se a decisão por deixar o posto, por um lado, parece pessoal, por outro, O PRÓPRIO MERCADO FORMAL DE TRABALHO DÁ INDÍCIOS DE NÃO SER O ESPAÇO MAIS ACOLHEDORpara as necessidades das mães. “Temos um MERCADO MUITO FECHADO PARA A MULHER. É um absurdo que, em 2016, ainda haja gente que diga que as mulheres perdem a capacidade de trabalhar depois de ter um filho. PESQUISAS MOSTRAM QUE DESENVOLVEMOS OUTRAS CAPACIDADES e passamos a ser até mais rápidas e produtivas”, pontua Maria Cristina.

Ela completa: “Se for pensar na vida produtiva da mulher, vamos trabalhar 40, 50 anos e passar cerca de 2, 3 mais em função dos filhos. Acredito que O FUTURO SERIA COMPARTILHARMOS UMA LICENÇA ENTRE PAI E MÃE, o que acabaria com o preconceito contra a mulher que engravida e nos daria mais opções. Até porque hoje vemos mais homens interessados em participar da criação dos filhos”.

CONSELHOS PARA QUEM QUER INGRESSAR

Para as mulheres que querem investir em um negócio próprio, Maria Cristina dá TRÊS DICAS:

1.    Primeiro, saiba que o ESTRESSE se mantém. “As pessoas acham que é moleza, mas é um modelo de trabalho mais moderno”, diz.

2.    O PLANEJAMENTO FINANCEIRO é muito importante. Calcule o quanto você tem e o quanto pode gastar antes de arriscar.

3.    É importante estar preparada para esperar o TEMPO DE MATURAÇÃO DO NEGÓCIO. “Brinco que é como uma gravidez, mas de mais meses. Por isso é tão importante o planejamento”, explica.

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