Arte & Cultura

Obras clássicas estão de volta às prateleiras em novas edições

Grandes da literatura mundial, como Crime e castigo e Matadouro-Cinco, ganham edições comemorativas e novas traduções

Crime e castigoMatadouro-Cinco e O apanhador no campo de centeio em novas traduções. Grande sertão: veredas com uma revisão que recupera palavras alteradas com os acordos ortográficos. Os dois volumes de O segundo sexo em capa dura, acompanhados de um caderno de textos de pesquisadoras e ativistas brasileiras e uma edição revisada de O jogo de amarelinha. O primeiro semestre de 2019 está generoso com os clássicos da literatura. Os tempos de crise podem não ser bons para o mercado editorial apostar em novos nomes, mas há uma leva de boas reedições aportando nas editoras. É um bom momento para avançar no desafio dos 100 livros para ler antes de morrer, porque todos estão nessa lista. Veja o que reservam essas reedições.

(foto: Crédito das fotos: Editora Intrínseca/Reprodução, Editora Todavia/Divulgação, Companhia das Letras/Reprodução e Nova Fronteira/Reprodução)
(foto: Crédito das fotos: Editora Intrínseca/Reprodução, Editora Todavia/Divulgação, Companhia das Letras/Reprodução e Nova Fronteira/Reprodução)
Matadouro Cinco
De Kurt Vonnegut. Tradução: Daniel Pellizzari. Intrínseca, 288 páginas. R$ 44,90
No prefácio da nova tradução de Daniel Pellizzari em comemoração aos 50 anos do romance, Antonio Xerxenesky avisa que Kurt Vonnegut é um autor acessível e de fácil leitura, mas que isso não implica em superficialidade ou banalidade.  “Nesse livro, assim como na obra inteira dele, gosto muito da intersecção entre melancolia e humor, quase sempre com algum toque de absurdo ou fantástico. É um modo eficaz de falar sobre os temas que ele trata, muitas vezes bem pesados, e enganadoramente simples: o texto é fácil de ler, mas dificílimo de escrever com a mesma competência”, diz Pellizzari, que leu o romance mais de uma vez ao longo da vida. Matadouro-Cinco se tornou um clássico por vários motivos. Não foi apenas o fato de nenhum autor alemão ter escrito sobre o massacre de Dresden, cujo saldo ultrapassa 100 mil mortos, mas o quão emblemático de uma época é o romance de Vonnegut. Alienígenas delirantes e memórias da guerra se mesclam para narrar uma ficção científica em que convivem várias dimensões. Para representar o que não pode ser representado, Vonnegut recorre ao fantástico. Sobrevivente do bombardeio de Dresden — depois de capturado pelos alemães na Bélgica, ficou preso com companheiros em um matadouro enquanto as bombas destruíam a cidade alemã —, o autor mergulha na própria experiência para depois embarcar em uma metáfora ancorada na ficção científica. Não é à toa que Matadouro-Cinco também é conhecido como “a cruzada das crianças”. É o título que o narrador promete a uma personagem para o livro sobre Dresden que nunca consegue terminar. A guerra é feita por “bebês”, homens muito jovens, e, acredita a personagem, se alimenta de estímulos alocados em livros e filmes. Os horrores dessa empreitada são pontuados pela frase “É isso mesmo!”, cravada ao longo da narrativa para evidenciar a dificuldade de lidar com os fatos. O personagem Billy Pilgrim transita entre dimensões enquanto relembra a guerra. É sério, mas é também um delírio necessário para não enlouquecer.
Crime e castigo
De Fiódor Dostoievski. Tradução: Rubens Figueiredo. Todavia, 604 páginas. R$ 74,90
Em nova tradução de Rubens Figueiredo, a Todavia traz de volta o clássico de Fiódor Dostoievski sobre um estudante que se acha no direito de cometer um assassinato para solucionar uma dívida porque simplesmente acredita estar predestinado a uma vida especial. Raskolnikov, que passa boa parte do romance tentando convencer o leitor da razoabilidade de seus atos, é também um passeio proposto por Doistoievski pelos dramas das metrópoles do século 19. O livro foi escrito em São Petersburgo, em 1865, e por ele desfilam personagens recorrentes no universo de Dostoievski, que são também figuras típicas de uma época e de um momento histórico. Rubens Figueiredo leu o romance pela primeira vez na adolescência e, há 20 anos, leu novamente a tradução de Paulo Bezerra feita para a Editora 34, a primeira diretamente do russo publicada no Brasil. “Há uma espécie de mitologia que envolve o romance e que se desenvolve ao longo do tempo. Agora, ao fazer a minha tradução, creio que vi o livro com outros olhos, mais ponderados e mais próximos da realidade histórica, espero”, diz o tradutor. A linguagem de Crime e castigo é muito próxima de obras como O jogador O eterno marido, que Rubens também traduziu. Para ele, o grande desafio do trabalho foi a pressão da oralidade, da língua falada, muito evidente no original russo. “Não me refiro propriamente a gírias ou à linguagem informal, mas, sim, ao esforço para reproduzir a fala concreta das pessoas. Mesmo quando se trata do pensamento puro, colhido em estado bruto. Nisso se manifesta o influxo do teatro no romance de Dostoiévski, um elemento até estrutural em sua obra, me parece”, explica.
Grande Sertão Veredas
De João Guimarães Rosa. Companhia das Letras, 558 páginas. R$ 84,90
Para comemorar os 63 anos do romance de João Guimarães Rosa, a Companhia das Letras lançou duas novas edições. Uma delas, de luxo e com a capa bordada, teve os 63 exemplares esgotados rapidamente. A outra vem acompanhada de textos críticos assinados por Walnice Nogueira Galvão, Roberto Schwarz, Fernando Sabino, Clarice Lispector, Benedito Nunes, Davi Arrigucci Jr. e Silviano Santiago. O texto também foi revisado e, segundo o editor Érico Melo, foram feitas 115 alterações para recuperar termos alterados por acordos ortográficos. “Queríamos resgatar, principalmente, os acentos que as reformas ortográficas tinham eliminado. São importantes, porque são marcadores das mudanças de voz e da própria pesquisa de Guimarães Rosa, principalmente os neologismos que ele criou. As palavras pouco usuais ou inventadas entraram no nosso foco para terem a grafia original restituída. O Guimarães Rosa era radicalmente contrário ao acordo ortográfico, sentia que o trabalho dele estava sendo atacado nesse sentido”, conta Melo.
 
O segundo sexo
De Simone de Beauvoir. Tradução: Sérgio Milliet. Nova Fronteira. Box com 2 volumes, 936 páginas. R$ 169,90
A obra mais importante de Simone de Beauvoir chega aos 70 anos com um vigor que Sylvie Le Bon de Beauvoir, herdeira e editora da autora, acredita relevante para o feminismo no mundo. “O segundo sexo ainda tem muito que dizer às mulheres. O fato de que não se para de traduzi-lo para as línguas mais variadas ao redor do mundo é uma prova indireta disso”, disse, em entrevista publicada em caderno anexo que acompanha a caixa com dois volumes em capa dura reeditados pela Nova Fronteira. No material, há textos de Mary del Priore, Djamila Ribeiro, Marcia Tiburi e Mirian Goldenberg sobre a atualidade da obra e o impacto da leitura em suas vidas.
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Em Fatos e mitos, o primeiro volume de O segundo sexo, Beauvoir traz o tema da condição feminina analisada sob os aspectos histórico e biológico. No segundo, A experiência vivida, são as fases da vida que ela debulha ao falar da infância, da iniciação sexual, do casamento, da paixão e do envelhecimento. Esse volume traz a famosa frase “Ninguém nasce mulher: torna-se mulher”, uma espécie de síntese de uma parte inteira dedicada à formação da mulher.

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