Conversa de Mãe

Quatro mães revelam suas histórias e aconselham mulheres na mesma situação

Perdas, doenças e momentos difíceis. Elas celebram a maternidade e todas as suas vitórias e cicatrizes.

O segundo domingo de maio, o Dia das Mães, é para muitas mulheres um momento especial para celebrar a maternidade, com todas as suas cicatrizes, sonhos, alegrias, medos e lutas. Nesse clima de gratidão e força, quatro mulheres incríveis contaram para o MdeMulher suas grandes histórias e deixaram um conselho para outras mães que se veem em desafios parecidos com os delas.

“Perdi uma filha, mas não desisti da maternidade”

A cozinheira Daniela Morales sempre quis ser mãe. O desejo ficou ainda mais forte após casar, em 2005, quando começaram as muitas tentativas. Sem resultados, em 2009, buscou uma médica para compreender o que estava acontecendo. No consultório, a doutora perguntou: “você quer muito ser mãe?”. “É um sonho!”, respondeu.

A profissional pediu um minutinho para mostrar uma coisa. Naquele momento, Dani e o marido, escutaram pela primeira vez o coração da filha. Ela já estava grávida de 9 semanas. Os 5 meses seguintes foram tranquilos, sem enjoos ou dores. Mas em uma das consultas, foi comunicada que ela já tinha dilatação e precisava de repouso absoluto.

Daniela ficou quietinha, mas aos 6 meses de gestação, a dilatação aumentou e ela foi internada. O diagnóstico dizia que ela sofria de uma insuficiência do colo do útero, que tende a abrir-se, causando parto prematuro. Durante a madrugada no hospital, a dilatação continuou a aumentar e muitas contrações apareceram. “Entrei em desespero, sabia que a neném não estava preparada”. Mas não teve jeito, Lucymara nasceu com 695 gramas e “cabendo na palma da mão”.

Daniela não teve nem tempo de ver a bebê direito, já que ela já foi levada para a incubadora, onde lutou por 11 dias. “Eu sempre tive em mim que ela era muito pequena, que não ia sobreviver”. Mãe sabe das coisas e a ligação do hospital mais temida aconteceu. Os meses seguintes foram de luto e tratamentos médicos. Após 6 meses, ela estava liberada para tentar uma nova gravidez – e uma nova luta começava.

Depois de um ano difícil, onde chegou a sobreviver de um acidente de carro, Dani teve, pela segunda vez, a melhor surpresa: estava grávida. “Meu Deus, tudo de novo”, ela pensou. Sim, tudo de novo, incluindo toda alegria, medo, insegurança, repouso. Mas dessa vez, ela sabia do problema e começou um tratamento: medicação, vacinas e cerclagem uterina (procedimento em que acontece uma espécie de costura do útero). “O medo foi grande, mas na hora a vontade de ser mãe foi maior”.

E assim veio ao mundo Vytória! O nome, claro, representa toda a história. Ela deu um susto na mamãe por chegar um pouco mais cedo – antes dos 8 meses de gestação-, mas deu tudo certo. “Vivi” já tem 9 anos e tem o maior orgulho de ser irmã mais nova de uma luzinha lá no céu.

 (Arquivo Pessoal/ Júlia Vicheti/MdeMulher)

“Um conselho? Se o médico diz que tem chance de engravidar, confie e faça o tratamento direitinho. No final, tudo vai dar certo! Ah, e vale a pena o sacrifício do repouso. Esperar alguém trazer água para você não é fácil, eu sei, mas o amor de um filho é tudo.”

“Descobri o câncer amamentando meu filho”

A médica veterinária Maria Claudia Portes, 37, não sabe explicar a alegria que sentiu quando descobriu que poderia cumprir sua promessa de anos para o Arcanjo Rafael: estava grávida de um menino, que ganharia o nome de seu protetor.

Com 30 semanas de gestação, Cacau – como é conhecida-  sentiu a mama direita um pouco alterada e dura. Procurou um mastologista e foi orientada a fazer um exame de ultrassom nas mamas que não detectou nada de anormal. “Sempre achei que teria muito leite e era meu sonho amamentar muito, doar leite”, conta.

Ela estava radiante com o nascimento do pequeno. Entretanto, as dificuldades para amamentar foram surgindo logo após o parto. No primeiro momento, achavam que problema era o excesso de leite, então, foram muitas compressas, ordenha, mas nada…

Alguma coisa estava errada. Depois de exames, uma nova ida à mastologista confirmou a presença de nódulo na axila. Quando foi diagnosticada com câncer, Maria Claudia conta que só dizia: “eu não posso morrer, tenho que criar o meu filho”.

Mas disse também que não teve tempo para o luto da doença: logo iniciou aquimioterapia. E quando seu filho completou seis meses de vida, passou por um processo cirúrgico para retirada da mama direita com esvaziamento axilar (retirada dos linfonodos da axila).

Rafael, que em hebraico significa “Deus curou”, veio na hora certa, segundo a mamãe. “Sem dúvidas, ele é o meu anjo da cura. Eu só descobri a doença, porque não conseguia amamentar”. Ressaltando a importância do diagnóstico cedo para iniciar o tratamento o quanto antes.

Alguns dias depois da primeira quimioterapia, Cacau ficou com baixa imunidade e precisou ser internada. A saudade e a dor de ficar longe do seu pequeno de apenas 45 dias de vida foi parar no papel. “Resolvi escrever pra contar pra ele o que estava acontecendo; falar o porquê de eu estar longe dele nesse momento tão importante”, explicou.

“Aqui no hospital está tudo bem, o médico acabou de falar que se eu continuar sem febre, vai me dar alta na sexta feira, então só temos mais um dia separados, tá? Aguenta aí e seja obediente!”, escreveu no comecinho da carta.

*O texto completo está aqui no Blog Mamãe Sortuda, no qual Cacau tem uma coluna fixa, a “Carta para Rafael”. Ela já avisa que “todo mundo se emociona, hein?”.

Com altos e baixos e muita luta, ela alcançou a remissão em março de 2019. “Às vezes parece que não, mas tudo passa! Faz um ano que eu recebi o diagnóstico e eu olho para trás e nem me lembro direito como foi e o que aconteceu. Passou, faz parte da minha história, vida que segue”.

Atualmente, ela segue com a radioterapia e medicação preventiva por tempo indeterminado. No domingo, 12 de maio, – sim, em pleno Dia das Mães- Rafael completa um ano de vida. E em junho, a sua mamãe guerreira será homenageada no Congresso Brasileiro Mame Bem.

 (Acervo Pessoal/ Júlia Vicheti/MdeMulher)

“A batalha é dura, longa e dolorosa, mas vai passar. Tenha orgulho de suas cicatrizes, elas são sinais que você está viva e isso é bom demais. Não esqueça de extrair sempre o melhor, mesmo que seja do pior.”

“Fui mãe jovem e vivi um relacionamento abusivo”

Não são todas as mulheres que têm a maternidade como o grande sonho. “Eu não conhecia nada. Com 17 anos, só queria conhecer o mundo”, conta a maquiadora Juliana Araújo, que descobriu a gravidez, com dois meses de relacionamento com o seu primeiro namorado. A mãe da jovem, no primeiro momento, não aceitou. O companheiro era viciado em drogas. Então, ela partiu sozinha para o interior de São Paulo, morar na casa do pai.

Ana Clara nasceu de cesárea. “Me vi sozinha na hora do parto. Eu não sei de onde sempre arrumei essa força, mas na hora eu falei ‘vai dar tudo certo’. E deu”, afirma.

Após o nascimento da bebê, as coisas começaram a se ajeitar, primeiro as pazes com a mãe e, por fim, a reconciliação com o namorado, depois dele passar por uma clínica de reabilitação.

A relação durou oito anos, mas Juliana vivenciou desrespeito e violência – foi uma vítima de um relacionamento abusivo. “Ele me agredia e a minha filha via, eu não sabia da Lei Maria da Penha, pra mim aquilo era normal”. Até um episódio que deixou marcas eternas em Juliana: durante uma das brigas, grávida do segundo filho, um golpe no peito fez com que ela perdesse o bebê.

Ela teve sangramento e recebeu a confirmação do médico de que não havia mais batimentos. “Ali meu mundo caiu. Eu não queria outro filho, porque minha vida já era muito difícil, mas também não queria que fosse assim”, fala com a voz trêmula.

“Até que um dia eu parei e pensei: estou fantasiando uma família”. A minha filha estava crescendo em um ambiente ruim. Eu prefiro ser mãe solteira, batalhar e passar para ela o que realmente é verdade”, completou.

Hoje, aos 29 anos, Juliana se orgulha das conversas honestas e abertas que tem com a filha de 11 e por terem uma linguagem em comum pela idade. Elas conversam sobre sexo e sexualidade, drogas e todas as dúvidas que surgem na cabeça da garotinha.

O apoio para cuidar da filha é pouco. “Você tem que lutar sozinha pelo seu filho. No começo é difícil, mas depois vira uma coisa natural. Eu me orgulho. Eu faço o meu melhor. Às vezes, eu deixo de comer para dar para ela. Ah, eu sempre dou um jeito”.

Ela fica admirando uma foto com Ana Clara. “Você tá vendo esse sorriso? É ele que me motiva”.

 (Acervo Pessoal /Júlia Vicheti/MdeMulher)

“Tem que parar de achar que mãe solteira não vai conseguir e que é preciso voltar para o relacionamento abusivo. Vai, mesmo que a sociedade inteira diga ao contrário. Tem muita mulher por aí para mostrar que você consegue. Busque ajuda, vale a pena”

“Perdi meu marido quando meu filho tinha 4 meses”

“Foi um susto, mas sentimos muita alegria”, assim que Lucia Barbosa descreve o momento que ela e o marido Martinho Tomás descobriram a gravidez, no meio da correria dos preparativos da festa de casamento, depois de 9 anos de namoro e três de noivado.

Renan chegou e foi a alegria dos pais. Só que Lucia acabou realizando sozinha o sonho de ver o menino crescer. Quando o garoto tinha apenas 4 meses, o marido dela se afogou durante uma viagem que a família fez à praia. “Perdi minha base, perdi tudo. Pensei: ‘e agora, como vou criar essa criança sozinha?’”, conta.

No começo, a revolta a perseguiu. “Eu achava que era injusto aquilo ter acontecido comigo, depois de tantos anos juntos”. Mas o amor foi amenizando a dor. “Graças a Deus, o Renan veio, porque ele foi a minha companhia, meu porto seguro, ele que me deu forças para continuar”, diz, emocionada. Nesta período difícil, ela contou com a ajuda  preciosa  de outras duas mães: sua genitora e sua sogra.

A ausência da figura paterna e essa ideia de equilibrar a emoção com a razão apareceu mais na adolescência do filho, quando Lucia sentiu “que precisava fazer o papel de mãe e pai”. Coube a ela ser sempre quem falava o “não”. Por isso, muitas vezes escutou: “a mãe de todo mundo é legal, só a senhora é assim. Acho que ele queria dizer chata, né?”.

Mas ela sabia o que estava fazendo. Ainda mais por presenciar a realidade perigosa como sargenta da Polícia Militar. “Tudo que eu convivi no trabalho…. Eu sei muito bem o que é perigoso”, diz.

“Além disso, por conta do trauma da perda do meu marido, eu nunca deixei o Renan viajar sozinho para o litoral. Eu não sei qual vai ser minha reação quando ele disser que vai à praia sem mim. Ele já tem 20 anos, eu sei que isso uma hora vai acontecer”.

Instrutora de Krav Magá, ela sabe como se defender e entende de cautela, principalmente, quando quem está protegendo é a pessoa mais ama. “Eu costumo sempre dizer que ele é a única coisa que eu tenho na vida, então eu tenho que preservar.”

 (Acervo Pessoal/Júlia Vicheti/MdeMulher)

“Sejam presentes na vida dos seus filhos. Sejam cautelosas e até mesmo “as chatas”, sem receio de perguntar onde está, o que está fazendo…É necessário!”.

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