Conversa de Mãe

Será que meu filho tem transtorno de hiperatividade ou é só muito agitado?

O diagnóstico é importante para eliminar qualquer dúvida e, se necessário, encaminhar o tratamento que melhore a qualidade de vida da criança.

Já dizem os pediatras: criança ativa é criança saudável. Mas algo deixa muitas mães e muitos pais confusos, afinal, em que ponto a agitação natural da infância passa a indicar um transtorno de hiperatividade e, consequentemente, a necessidade de acompanhamento médico multidisciplinar?

Com tanta informação truncada chegando no celular e sendo falada aqui e ali, não é raro os responsáveis pela criança “encontrarem” TDAH (transtorno de déficit de atenção com hiperatividade) onde não existe. Ou, por desconfiarem que tudo é exagero, deixarem passar um TDAH real que precisaria ser tratado em nome do bem-estar do pequeno.

“É compreensível que os pais fiquem inseguros, pois não existe um exame de sangue ou neurológico que evidencie uma alteração orgânica na criança para ajudar no diagnóstico de TDAH”, afirma Carla Poppa, psicoterapeuta de crianças, adolescentes e adultos e autora do livro “O Suporte para o Contato – Gestalt e Infância” (Editora Summus).

Por isso, é preciso ficar de olho em sintomas – mas com cautela. Antes de irmos a eles, a psiquiatra Livia Beraldo de Lima Bassares, assistente da enfermaria de controle de impulsos do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da FMUSP, explica: “A criança agitada apresenta alguns destes sinais em determinadas situações e logo volta a ter foco, enquanto a que tem TDAH os vivencia praticamente o tempo todo, em todos os lugares e tem dificuldade para focar caso não conte com ferramentas para lidar com isso”.

Trocando em miúdos: observe a ação de seu filho ou de sua filha por um tempo – alguns dias, de preferência – antes de decidir se é preciso procurar ajuda médica ou não.

Sintomas clássicos do TDAH

Carla e Livia indicam como sintomas clássicos de transtorno de déficit de atenção com hiperatividade:

– Cometer erros bobos repetidamente por falta de atenção (repete o erro várias vezes mesmo depois de receber uma boa explicação sobre ele);

– Não conseguir acompanhar uma história de livro adequado para a idade até o fim;

– Interromper a fala de todos (adultos e crianças) o tempo todo;

– Abandonar brincadeiras adequadas para a idade antes de finalizar o que ela propõe ou enquanto todos ainda estão se divertindo para fazer outra coisa totalmente diferente;

– Demonstrar irritação com atividades que exijam que se fique continuamente sentado (pintar, por exemplo);

– Esquecer objetos em todos os lugares (no armário do clube, na escola, na quadra de esportes, na casa dos amigos).

Eles costumam ser notados e diagnosticados a partir dos 4 anos de idade, mas podem se manifestar bem lá na frente, às portas da vida adulta.

Acho que meu filho tem TDAH. E agora?

Se você observa a maioria dos sintomas continuamente em seu filho, é natural que queira uma opinião médica para fechar um diagnóstico ou eliminar a dúvida. O procedimento dependerá de em que medida os sintomas estejam prejudicando o dia a dia e o bem-estar da criança e da abordagem com que a família se sinta mais confortável.

Mães e pais que prefiram contar com um pouco mais de observação e dar um tempo para o filho ou a filha demonstrar o comportamento para a especialista escolhida tendem a se dar melhor com um tratamento que comece pela psicoterapia. “As sessões com a criança têm a intenção de ajudá-la a entrar em contato com suas próprias sensações e agir de acordo com o que sente”, diz Carla.

Ela esclarece que as crianças apenas agitadas terão a atenção dispersada por qualquer estímulo do ambiente novo, mas, conforme a familiaridade com suas sensações aumenta, a agitação tenderá a diminuir. “Nas sessões de orientação com os pais, a ideia é refletir sobre as mudanças que precisam ser feitas na dinâmica familiar para que a criança tenha espaço para expressar suas necessidades.”

Porém, se após um tempo de terapia e mudanças familiares a agitação permanecer e seguir comprometendo a qualidade de vida da criança, aí sim é melhor pensar em encaminhá-la para uma psiquiatra que avalie se a medicação é necessária.

Por outro lado, mães e pais que já notem um prejuízo muito grande na vida da criança devido aos sintomas clássicos e claros de TDAH – e tenham recebido alguma orientação da escola nesse sentido, o que é muito comum – tendem a se sentir mais confortáveis indo direto a uma psiquiatra.

Lá será feita uma avaliação clínica baseada em observação e questionários e então a criança poderá ser encaminhada para uma psicoterapia que a ajude a organizar sua atenção.

A partir daí será necessário um esforço combinado entre família, profissionais e escola para que a criança progrida em todos os aspectos. “A comunicação entre escola e profissionais, por meio de relatórios e agenda, é muito importante”, observa Livia.

Todo esse cuidado refletirá de forma positiva no futuro. Crianças com TDAH não tratada correm o risco de serem inseguras na adolescência e na vida adulta, terem dificuldade para tomar decisões simples e sentirem uma inadequação que leve à depressão. Já as crianças apenas agitadas conseguirão focar de forma adequada suas atenções e viver melhor. Na dúvida, não hesite em fazer o encaminhamento completo.

 

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