Conversa de Mãe

Uma mãe aprendendo a ser filha

Uma pergunta que se ouve muito ao final da gravidez é: “Sua mãe ficará na sua casa após o nascimento do bebê?” O questionamento é seguido de causos em que ela – mãe e também sogra – interferia na harmonia da casa, embora fosse de extrema importância nos primeiros cuidados com o filhote. Sete dias? Até o umbigo cair? Um mês? Todo o resguardo? A resposta sempre ficava engasgada, especialmente em se tratando de um casal “fechado”, ou melhor, que tem dificuldades em expor o que se faz, assiste, ouve, come e tudo o mais que faz parte de uma rotina. O que eu antecipadamente combinei com a minha mãe é que não seríamos nós a bater martelo em um período, mas sim o próprio Otávio.

Passei a gestação imaginando a minha nova família – eu, meu marido e meu filho. Confesso que, na minha cabeça, não enxergava a minha mãe na minha casa, dormindo no quarto ao lado e tomando banho por aqui (calma mãe, não fica triste! Leia até o fim). Afinal de contas, era um sonho construir uma nova família, do meu jeito, sem monitoramento e palpite algum. Sou assim desde os tempo de um quadro pendurado na sala da minha avó, em que sou a única netinha com cara de brava. O motivo? Na pré-escola não queria tirar aquela foto, muito menos com uniforme, mas sim com a roupa que eu mesma pudesse escolher.

Então, quanto menos tempo minha mãe ficasse na minha casa, melhor? Depois dessa introdução você poderia deduzir que a resposta seria sim. Antes do Otávio, sem sombra de dúvidas que essa seria a minha escolha. Mas, entretanto, contudo, porém… NÃO. Isso mesmo, com letras garrafais. Agora quero a minha mãe, seja no quarto, na sala, na cozinha, no banheiro e até no meu quarto. Todo o tempo. O tempo todo. De tudo quanto é jeito.

Em pouco mais de três meses, o meu filho me ensinou a também ser filha. No espelho que eu fitava enxerguei, enfim, uma filha relapsa e desapegada, talvez fria e até tirana (ai). Quebrar este espelho me trouxe sorte. Vi ali minha mãe – uma mulher singular e heroica, com garra e ternura, com truques infalíveis para me tornar uma pessoa melhor. Quando todos os olhos se voltam para o Tavinho, é ela quem percebe se tenho fome, se sinto frio, se estou confortável, se não consigo mais controlar o sono e nem o cansaço. É a dona Suely que detecta a minha tristeza, o choro engolido, o suspiro de desaprovação. E enquanto ela se preocupa com detalhes e tenta adivinhar todas as minhas vontades, eu vou aprendendo a ser mãe. E quero ser desse jeitinho.

Comente isso

Seu e-mail não aparecerá no comentário.

Você vai gostar