Conversa de Mãe

Você já ouviu falar em plano de parto? Saiba porque ele é tão necessário atualmente

Documento serve para definir, por exemplo, o tipo de parto desejado e evitar procedimentos não explicados ou consentidos pela paciente

Imagine-se na seguinte situação: você está nas últimas semanas de gravidez e a bolsa se rompe antes do tempo, fazendo com que precise correr para o hospital. O plantão é de um médico que você nunca viu, o hospital está criando caso para deixar os seus acompanhantes entrarem e, em meio às contrações, fica realmente difícil explicar para aqueles que vão assisti-la se quer mesmo que a cesárea seja feita, e ainda expor os procedimentos que deseja para o seu filho depois que ele nascer.

VÁ DE PLANO DE PARTO

O cenário, de muita ansiedade e possíveis frustrações, acaba sendo mais comum do que se pensa. Para tentar evitá-lo, ou planejá-lo melhor, existe um DOCUMENTO CHAMADO PLANO DE PARTO, EM QUE A MULHER COLOCA TODAS AS SUAS PREFERÊNCIAS PARA A VINDA DO BEBÊ AO MUNDO E O ENTREGA AO HOSPITAL OU À EQUIPE MÉDICA RESPONSÁVEL POR ISSO. “Para a gestante poder escrevê-lo, a primeira questão que ELA PRECISA ENTENDER É COMO FUNCIONA UM PARTO, AS ETAPAS E PROCESSOS QUE ACONTECEM NÃO SÓ COM ELA, COMO COM O SEU RECÉM-NASCIDO”, explica a Dra. Flávia Maciel de Aguiar F. Mendonça, ginecologista e obstetra, e também porta-voz do site Geração Mãe. Segundo ela, a declaração pode ser literal, em forma de texto corrido, tópicos, check-list, da maneira que a futura mamãe quiser: é ali, de qualquer maneira, que ela vai determinar o que aceita ou não, suas vontades desde a chegada à maternidade até o momento da alta.

No plano de parto a grávida especifica quem serão os seus acompanhantes no momento do nascimento do filho FOTO: thinkstock

NO PLANO DE PARTO A GRÁVIDA ESPECIFICA QUEM SERÃO OS SEUS ACOMPANHANTES NO MOMENTO DO NASCIMENTO DO FILHO FOTO: THINKSTOCK

LISTANDO AS VONTADES

Os dados a serem levados em consideração incluem, por exemplo: O LOCAL DO NASCIMENTO, QUEM SERÁ O ACOMPANHANTE, QUAL SERÁ O TIPO DE PARTO, O OBSTETRA ESCOLHIDO; SE TERÁ DOULA; qual será a preparação do ambiente do quarto (com música, vela, meia-luz, massagem, chuveiro quente); em que posição se quer ter o bebê; se quer analgesia para dor ou não; SE O CORDÃO UMBILICAL DEVE OU NÃO SER CORTADO IMEDIATAMENTE, entre muitas outras opções. “Cada uma vai definir o que achar melhor para si”, a especialista recomenda. Até mesmo indicações sobre práticas médicas como EPISIOTOMIA (corte cirúrgico no períneo), TRICOTOMIA (raspagem dos pelos pubianos),ENEMA (lavagem intestinal) e jejum podem ser listadas.

Com relação ao filho, é possível colocar sobre toda a rotina que ele passará com vacinas, pesagem, medida; COMO GOSTARIA QUE FOSSE A AMAMENTAÇÃO; se quer que fique no berçário, ou prefere ter mais contato pele a pele com ele, e por aí vai.

De acordo com a médica, já existem arquivos prontos na internet que podem ser baixados ou copiados para serem preenchidos. A DEFENSORIA PÚBLICA DO ESTADO DE SÃO PAULOdisponibiliza, inclusive, um modelo de plano de parto, criado em parceria com a ARTEMIS, UMA ONG QUE VISA A ERRADICAÇÃO DA VIOLÊNCIA CONTRA A MULHER e a promoção da autonomia feminina.

RESPEITO EM PRIMEIRO LUGAR

A lista de solicitações inclui informações como os cuidados com posteriores com bebê FOTO: thinkstock

A LISTA DE SOLICITAÇÕES INCLUI INFORMAÇÕES COMO OS CUIDADOS COM POSTERIORES COM BEBÊ FOTO: THINKSTOCK

Embora a conduta não seja uma obrigatoriedade à equipe, ela é essencial para que as grávidas reconheçam e exerçam o direito de participarem ativamente deste momento. “Infelizmente, aqui no Brasil a GENTE AINDA TEM MUITA DIFICULDADE DE DAR AUTONOMIA PARA ELAS NO PARTO, de deixá-las fazerem essas escolhas. Tem muito profissional que não está acostumado com a ideia do público feminino ter consciência em todos os processos, e o poder decisório também”, a doutora afirma. “Mas à medida que ele ou a instituição estão sensibilizados a (tentarem) prover o serviço da melhor forma possível, individualizando o atendimento, o plano de parto é um instrumento maravilhoso”, pontua. É a luta que continua ativa até nesse aspecto para que haja cada vez mais respeito com as mulheres.

PROJETO DE LEI NO CAMINHO

O único ponto a ser levado em consideração, por enquanto, e que está em discussão em função do PROJETO DE LEI 5687/2016, QUE PREVÊ A LIBERAÇÃO DA CESÁREA ELETIVA A PARTIR DA 37ª SEMANA DE GRAVIDEZ – contrariando uma recente resolução do Conselho Federal de Medicina, de recomendar a cirurgia somente depois da 39ª – é a maturidade de formação do feto. “Por mais que a MULHER DESEJE A CESARIANA – e a gente não nega a ela o direito de escolha – tem que se pensar no bebê também. Porque a TAXA DE INTERNAÇÃO EM UTI NEONATAL, a de desconforto respiratório, e de intercorrências nessa criança antes das 39 semanas é 120 vezes maior que depois”, a ginecologista e obstetra informa. “Realmente, o organismo dela ainda não está maduro nessas situações”. Para ela, a exceção, no caso, é se começar o trabalho de parto mesmo, porque o evento fisiológico indica que tanto o corpo quanto a crianças estão prontos, que chegou a hora de parir; aí sim a resolução pelo método cirúrgico tem uma base para ser aplicada.

Cesárea eletiva antes da 39ª semana pode levar o bebê a permanecer por mais tempo na UTI neonatal FOTO: thinkstock

CESÁREA ELETIVA ANTES DA 39ª SEMANA PODE LEVAR O BEBÊ A PERMANECER POR MAIS TEMPO NA UTI NEONATAL FOTO: THINKSTOCK

ACERTANDO TIM TIM POR TIM TIM

A Dra. Flávia sugere, justamente, que haja uma conversa durante o pré-natal com o time do hospital, para checar o que é possível ou não de se realizar: “levar a lista de solicitações antes do trabalho de parto começar é importante para sanar as dúvidas, saber se realmente o que se tem em mente é factível”, conta. “A maioria das maternidades tem uma pessoa responsável por receber essa documentação. É bom protocolá-la e sempre ter algumas cópias consigo” – que podem ser dadas para os outros profissionais, como enfermeira obstétrica e pediatra, que também terão parte nos cuidados no pós-parto.

E SE NÃO ACEITAREM, O QUE FAÇO?

Caso o obstetra não aceite ou não siga as vontades da parturiente, e venha até a atuar de maneira não explicada ou consentida, é possível recorrer aos meios judiciais; em algumas ocorrências, a própria Defensoria Pública pode auxiliar nas DENÚNCIAS DE VIOLÊNCIA OBSTÉTRICA. É viável reclamar também junto à ouvidoria da instituição médica, do SUS e, inclusive, do Ministério Público Federal, e ingressar com uma ação legal.

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