Conversa de Mãe

Você realmente quer ser mãe? Entenda como a maternidade compulsória afeta as mulheres

Mudanças só vão ocorrer com a desconstrução dos papéis pré-estabelecidos destinados ao público feminino

Quantas mulheres, de fato, se questionam se querem ser mães? Chamada de MATERNIDADE COMPULSÓRIA, a premissa de que a capacidade de parir implica em tal necessidade tem permeado a coletividade desde as suas mais longínquas fases. “O termo, na verdade, vem da OBRIGAÇÃO DE TER FILHOS, como se a gente não pudesse encontrar escolha”, diz a psicóloga Tatiana Leite, especializada em terapia familiar e de casal, e sexualidade humana. “É cultural. A MULHER CHEGA AO PERÍODO FÉRTIL, COMEÇA A COBRANÇA: ‘você tem tantos anos e precisa engravidar’. É como se não houvesse outra possibilidade”.

 

DETERMINAÇÃO EXTERNA

Para a profissional, existe uma visão muito romantizada do que é passar pela experiência. “Vamos pensar que SER MÃE É CONSTRUÍDO SOCIALMENTE, sobre o que é visto e entendido acerca da circunstância, e o lugar que destinado a elas na sociedade. Esse é nosso papel social, que está incutido na mente das pessoas”.

“Além do mais, por muito tempo se imaginou, se concebeu, que aquela que não queria a situação para si estava deixando de ser alguém cuidadosa, carinhosa; como se fosse menos afetiva. Porque a maternidade é associada a isso, e não é uma verdade. Eu posso exercer minha maternagem – que é esse cuidado – POSSO SER MATERNA, E NÃO NECESSARIAMENTE SER MÃE”.

Muitas mulheres se veem grávidas e pensam sobre terem que abrir mão dos outros papéis que exercem também FOTO: thinkstock

MUITAS MULHERES SE VEEM GRÁVIDAS E PENSAM SOBRE TEREM QUE ABRIR MÃO DOS OUTROS PAPÉIS QUE EXERCEM TAMBÉM FOTO: THINKSTOCK

Esse, entretanto, é um momento que carece de ser desenvolvido individualmente. “Ou seja, de elaborar dentro de si, junto com os outros projetos e sonhos, O QUE É SER MÃE e como isso se dará?”. De acordo com a profissional, o público feminino busca cada vez mais esse equilíbrio, sem abrir mão das demais prioridades.

CONVICÇÃO MÉDICA SOBRE O DIREITO DO PRÓPRIO CORPO

Existe uma lei que permite, para ambos os sexos, a REALIZAÇÃO DE PROCESSOS DE ANTICONCEPÇÃO ACIMA DOS 25 ANOS ou com dois filhos. Ela, no entanto, só pode ser aplicada uma vez que se comprove a decisão dentro das faculdades mentais e saudáveis do indivíduo; portanto, uma junta com médico, psiquiatra e psicólogo é encarregada de atestar tais pareceres. “É um respaldo jurídico caso aconteça uma mudança de opinião – VISTO QUE A LAQUEADURA NÃO É REVERSÍVEL (e, embora a vasectomia o seja, há uma porcentagem que muitos não conseguem reverter)”, Tatiana fala. “Só que se você for pesquisar, a laqueadura foi utilizada antigamente para esterilizar pacientes quando eram internadas em hospitais psiquiátricos. E a partir disso, tem toda essa normatização para dizer: ‘vamos proteger’. É aquela busca de solução que tem que ser igual para todos”, pontua.

Muitas mães podem apresentar casos de depressão pós-parto em função da imposição de terem filhos e serem responsáveis por eles FOTO: thinkstock

MUITAS MÃES PODEM APRESENTAR CASOS DE DEPRESSÃO PÓS-PARTO EM FUNÇÃO DA IMPOSIÇÃO DE TEREM FILHOS E SEREM RESPONSÁVEIS POR ELES FOTO: THINKSTOCK

“Mas a gente sabe que não é assim, as pessoas DEVERIAM TER A CHANCE DE ESCOLHER O QUE QUEREM para suas vidas. Não o Estado”. Na verdade, não há demandas para ratificar o contrário: que um sujeito demonstra capacidade psíquica, emocional, financeira, entre outras, para botar um serzinho no mundo. “A gente vê que isso é uma tentativa de controle, porém, sempre existem as saídas que as pessoas vão atrás”. Assim, as POLÍTICAS PÚBLICAS ACABAM POR COLOCAR A MULHER EM UM CONTEXTO DE VULNERABILIDADE.

CONSEQUÊNCIAS REAIS

“Se a mulher não está bem com ela mesma e vê isso como uma obrigação, é como se pensasse que é forçada a tomar uma decisão em função da criança. Parece que não pode fazer outra coisa a não ser cuidar. Sabe-se que para muitas isso não é prioridade – e não significa que sejam mais, menos ou melhores mães”, a psicóloga ressalta. “O próprio processo após o nascimento é muito rápido; uma mudança muito grande, até hormonal. Existe, na literatura, o famoso ‘BABY BLUES’, no qual a mulher passar por essa transformação natural, um misto de emoção, em que SE SENTE TRISTE, CULPADA, SOBRECARREGADA. É um período de adaptação; contudo, nem todas estão preparadas e se reconhecem como mães imediatamente. Por mais que na gestação tenha tudo ido bem, se no pós-parto alguns sentimentos foram crescendo, como ansiedade, tristeza é importante PARAR DE RESPONSABILIZAR A MULHER, COMO ‘VOCÊ NÃO GOSTOU DO SEU FILHO’”. A procura por ajuda especializada para diagnóstico, tratamento e cura são fundamentais. “Não se pode colocar em risco a vida da mulher e da criança, é preciso parar de fantasiar e compreender que pode sim ocorrer”.

A decisão de gerar uma criança deve ser do casal, que assumirá a responsabilidade de modo compartilhado FOTO: thinsktock

A DECISÃO DE GERAR UMA CRIANÇA DEVE SER DO CASAL, QUE ASSUMIRÁ A RESPONSABILIDADE DE MODO COMPARTILHADO FOTO: THINSKTOCK

FORÇA CONJUNTA

“Há ainda a DITADURA DA MATERNIDADE VEM DAS PRÓPRIAS MULHERES. A gente vê em blogs de maternidade, posts… Enquanto as MÃES JULGAM AS OUTRAS, deveria ser o apoio, o incentivo”. Conforme a expert, o trabalho é de desconstrução de conceitos pré-estabelecidos. “Porque ainda hoje, quando os filhos passam mal na escola, para quem eles ligam? Para a mãe. A gente tem que falar mais em MATERNIDADE E RESPONSABILIDADES COMPARTILHADAS. O casal tem que criar um espaço para essa criança. É tão essencial o homem resolver ter filhos quanto a mulher. A pergunta deveria ser diferente: ‘e agora, vamos engravidar?’. Parar de ficar achando que é só a mãe. A questão tem que começar dentro de casa: meu companheiro que vai dar exemplo de como ele trata, admira a mulher e o trabalho dela, para que ela se sinta mais forte e apoiada para continuar, e assumir a prioridade perante a família e a sociedade. A gente só vai preparar filhos melhores com uma educação de modelo de família, casamento, masculino e feminino modificados. O micro vai se transformar em macro. É trabalho de formiguinha: faz em um dia e precisa no seguinte de novo”.

 

Comente isso

Seu e-mail não aparecerá no comentário.

Você vai gostar